segunda-feira, 7 de abril de 2008

O poder de um faroeste caipira

O poder de um faroeste caipira
Filme inspirado no 'hit' sertanejo 'O menino da porteira' ganha nova versão estrelada por Daniel

Ana Cristina Pereira


O personagem merecia mesmo ganhar uma estátua e virar cartão de visitas da Ouro Fino, no interior mineiro. Quem chega à cidade se depara com o menino encostado na porteira e vai imediatamente lembrar do clássico sertanejo O menino da porteira, de Luizinho e Teddy Vieira, composto em 1954 e regravado incontáveis vezes. A canção deu origem ao filme homônimo, dirigido por Jeremias Moreira, que tomou de assalto as telas brasileiras em 1976, catapultando a carreira do cantor e compositor Sérgio Reis, galã da fita e intérprete da canção-tema. Quatro milhões de pessoas assistiram e se emocionaram com o drama. "Foi um sucesso imenso", resume o produtor Moracy do Val, 70 anos. Poucos filmes nacionais chegaram a esta marca. Para ficarmos num exemplo na mesma seara, o recente 2 Filhos de Francisco, que contou com um esquema de produção e divulgação impensáveis na época de O menino da porteira, chegou a cinco milhões de espectadores. O bom desempenho do filme sobre a vida de Zezé Di Camargo e Luciano foi um dos estímulos para o produtor e o diretor Jeremias Moreira tocarem o projeto de um remake para o longa dos anos 70, assumindo os mesmos postos que ocupavam há três décadas. A estrela, desta vez, será o cantor Daniel. As filmagens deste faroeste caipira começam no próximo dia 14, em Brotas, interior paulista, cidade natal de Daniel e onde ele tem uma fazenda. Em entrevista por e-mail, o artista disse que está "ansioso" para começar a viver o boiadeiro Diogo, que desenvolve uma bonita amizade com um garoto. "Acho que o fato de ser do interior, de conhecer a vida de um peão, de gostar das coisas simples do interior, irá me ajudar a compor o personagem", anotou Daniel, que estréia como protagonista e está recebendo aulas de interpretação. Assim como outros artistas que firmaram carreira no universo sertanejo, ele adora O menino da porteira, que cantava desde pequeno. Por isso, se empolgou com o convite de reviver a saga do peão simples e de bom coração, que desenvolve uma amizade sincera com o garoto que sempre corria para abrir a porteira quando ele se aproximava. Em troca, pedia ao moço para tocar seu berrante. "Achei que o Daniel era a pessoa certa e, mesmo com uma agenda lotada, ele topou na hora", conta Moracy.
Produtor e diretor acalentavam o projeto da refilmagem há alguns anos, mas temiam como seria a recepção do mercado. O sucesso de 2 Filhos de Francisco injetou coragem e boas expectativas: "Acredito que há uma demanda, um grande público para a música sertaneja, que atingiu a classe média e está tanto na zona urbana quanto na rural, ao contrário dos anos 70", afirma Moracy.
Ambientado na década de 50, O menino da porteira tem orçamento de R$6 milhões, já captados através da Lei do Audiovisual junto a empresas como o BNDS e as Casas Pernambucanas. Também se beneficou do Plano de Ação Cultural da Secretária de Cultura de São Paulo. Em termos financeiros, recorda o produtor, não tem nem parâmetros comparativos. "Nós não trabalhávamos num esquema muito profissional. Para você ter uma idéia, nossa equipe de filmagens era de 12 pessoas, e agora são 60", afirma.
Integram a equipe, por exemplo, o diretor de fotografia Pedro Frakas, o diretor de arte Adrian Cooper e o maestro Nelson Ayres, responsável pela trilha sonora. No elenco, além de Daniel, nomes como José de Abreu, que fará o major Batista – o vilão que explora a população rural – e Vanessa Giácomo, que será a mocinha. O menino Rodrigo será vivido pelo paulista João Pedro Carvalho, 8 anos. "É a mesma história, nostálgica, só que com um olhar mais atual", resume Moracy.
Parte das filmagens vai acontecer no Pólo Cinematográfico de Paulínia (SP), onde foi instalada uma cidade cenográfica. Se tudo correr bem, O menino da porteira chega às telas de todo o país, pela distribuidora Columbia, até o final do ano.

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Flagrante de uma mina de ouro

O cantor e compositor Sérgio Reis ainda integrava a Jovem Guarda, quando resolveu cantar, num show, O menino da porteira. Já era bastante conhecido por Coração de papel, mas a repercussão da música caipira foi tão boa que ele resolveu gravá-la, resultando num grande sucesso de público. Tão grande que guiou Sérgio Reis para a música sertaneja, definindo seu perfil artístico. Testemunha ocular da história, Moracy do Val viu ali a mina de ouro. Na época, o jornalista vinha de uma explosiva experiência como produtor do grupo Secos & Molhados (1974) e atuava com promoção em gravadoras e televisões. Vale destacar que ele foi um dos fundadores do Teatro Oficina, de José Celso Martinez Côrrea, e produtor da série Noites de Bossa, no Teatro de Arena (São Paulo). Juntamente com os cineastas Jeremias Moreira e Carlos Reali, Moracy montou a Topázio Cinematográfica, que estreou com o faroeste caipira O menino da porteira.
Depois do estouro do filme, Moracy passou a empresariar Sérgio Reis e lembra que seu cachê quintuplicou. Além disso, sua fama, no rastro do longa, se espalhou por todo o país e a trilha ganhou disco de ouro. Em 1977, Moracy produziu Mágoa de boiadeiro, também protagonizado por Sérgio Reis e com grande alcance popular. Os filmes seguintes já não tiveram muito sucesso e, com a agonia da Embrafilme – enterrada no governo Collor – eles se afastaram do cinema.

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Daniel

'Estou ansioso para começar a filmar'

FOLHA - O que o levou a aceitar o papel de protagonista do filme?
DANIEL - Achei o projeto muito interessante. Um papel como este, realmente, nunca fiz. Só pequenas participações em dois filmes – um da Xuxa e outro do Didi. Estou ansioso para começar a filmar esse projeto.
F - Como está sendo a sua preparação?
D - Estou fazendo uma oficina sobre o personagem, recebendo instruções e dicas de profissionais gabaritados para isso.
F - Qual sua relação com o cinema?
D - Gosto muito de cinema. Assisto a todos os tipos de filmes. Inclusive estou reformando o cinema de Brotas/SP, minha terra natal, e vamos reinaugurá-lo este ano ainda, depois de 20 anos fechado.
F - Você já tinha assistido ao filme original? O que acha da história e da música que a originou?
D - A música é um clássico que dispensa comentários, não é? Gosto demais, cresci ouvindo e cantando O menino da porteira. Assisti ao filme há muitos anos, mas confesso que não me lembro de quase nada, e a produção, assim que me fez o convite, pediu que eu não visse novamente.
F - Você viverá um papel que foi de Sérgio Reis e que acabou marcando muito a trajetória dele. Já conversaram sobre o assunto?
D - Somos amigos, admiro muito o Sérgio Reis. Recentemente, nos encontramos, comentamos sobre o filme, mas foi bem rápido.
F - Como está a gravação do seu novo disco?
D - Meu disco já está quase pronto e deve ser lançado no começo do mês de maio. Terá 16 faixas, com a produção do Rick (da dupla com Renner). Esperamos que vocês gostem, porque este Cd está com uma cara muito bacana, adorei o resultado.

http://www.correiodabahia.com.br/folhadabahia/noticia_impressao.asp?codigo=150641

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